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Mudanças climáticas na agricultura: quais são os impactos?

Mudanças climáticas na agricultura: quais são os impactos?

As mudanças climáticas na agricultura são transformações a longo prazo nos padrões de temperatura e clima. No mundo atual, são sem dúvida um dos maiores desafios da sociedade, com impactos em todas as esferas da vida humana.

Neste artigo, vamos falar sobre os principais responsáveis pelas mudanças climáticas, a forma como elas têm afetado a agricultura e quais ações estão sendo adotadas para reduzir os danos dessas transformações.

Confira a seguir!

O que é mudança climática?

Em síntese, podemos definir a mudança climática como a alteração contínua de uma variável de clima (temperatura ou chuvas, por exemplo) observada em áreas específicas a partir de dados comparados sistematicamente.

Esta comparação de dados é feita a partir da análise de informações obtidas ao longo do tempo. Assim, é realizada uma média histórica de 30 anos de dados atmosféricos, incluindo principalmente a densidade pluviométrica e a temperatura.

Por meio dessas informações, é possível então fazer uma média estatística para determinar o clima de um local. Esse número apresenta o que os meteorologistas denominam de variabilidade climática — ou seja, raramente um mesmo local apresenta condições iguais à média para determinado período do ano.

Sendo assim, a mudança climática só acontece, de fato, quando a média do clima para uma mesma região apresenta alterações ao longo do tempo.

Clima global

As mudanças climáticas vêm sendo observadas por institutos agronômicos ao redor do mundo, que verificam uma linha crescente na média de temperatura anual dos últimos 150 anos de registros.

Neste contexto, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês), centro de referência em pesquisas climáticas vinculado ao governo dos EUA, calculou que o clima global tem crescido 0,8 ºC por década desde 1880.

Ademais, a taxa de aquecimento dobrou a partir de 1981, de acordo com a Administração, alcançando um valor de + 0.18 ºC. Isso se configura como mudança climática. A cada ano a média de temperatura máxima bate o último recorde.

Outro sinal que os estudiosos observam para confirmar a mudança no clima é o fenômeno do aquecimento global, verificado pela medição de termômetros espalhados pelo mundo todo.

Como resultado, os modelos climáticos apontam uma subida intensa de temperatura até 2050, o que pode afetar agressivamente a agricultura.

Quais são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas?

As mudanças climáticas podem ocorrer devido a uma série de fatores. Conheça os principais a seguir:

Geração de energia

Na prática, a geração de eletricidade e calor pela queima de combustíveis fósseis influencia diretamente nas mudanças climáticas. Isso acontece porque a maior parte da eletricidade ainda é gerada a partir da queima de carvão, petróleo ou gás, produzindo assim dióxido de carbono e óxido nitroso, Gases de Efeito Estufa (GEE) que recobrem o planeta e retêm o calor do sol.

Em todo o mundo, somente um quarto da eletricidade é gerada por meio do vento, sol e outros recursos renováveis que, ao contrário dos combustíveis fósseis, emitem pouco ou nenhum gás de efeito estufa e poluentes do ar.

Fabricação de produtos

Ao fabricar cimento, ferro, aço, eletrônicos, plástico, roupas e outros produtos, a manufatura e a indústria produzem emissões, especialmente, por conta da queima de combustíveis fósseis para gerar energia.

No mais, a mineração, outros processos industriais e a construção civil também contribuem para liberação de GEE. Isso porque as máquinas utilizadas no processo de fabricação funcionam à base de carvão, petróleo ou gás.

Em resumo, a indústria de manufatura é considerada uma das maiores responsáveis pelas emissões de GEE no mundo.

Desmatamento florestal

Em geral, quando há o desmatamento de florestas para construção de fazendas ou pastos, também há a emissão de GEE. Nesse caso, ao cortar as árvores, consequentemente ocorre a liberação de carbono que estava armazenado.

Assim como as florestas absorvem o dióxido de carbono, a destruição delas também limita a capacidade da natureza em manter as emissões fora da atmosfera.

Nesse sentido, o desmatamento, assim como outras práticas que causam mudanças no uso da terra, é responsável por cerca de um quarto das emissões globais de GEE.

Uso de transporte

A grande maioria dos transportes como carros, caminhões, navios e aviões funcionam com combustíveis fósseis. Portanto, podemos afirmar que o uso desses veículos é um dos grandes responsáveis pela emissão de GEE, especialmente de dióxido de carbono.

Neste contexto, os veículos rodoviários representam a maior parcela da emissão de GEE, em função da combustão de produtos derivados de petróleo, como a gasolina, em motores de combustão interna. Entretanto, vale ressaltar, que as emissões de navios e aviões continuam a aumentar.

Em resumo, o uso de transporte é responsável por quase um quarto das emissões globais de dióxido de carbono relacionadas à energia.

Produção de alimentos

A produção de alimentos também é responsável pela geração das emissões de dióxido de carbono, metano e outros GEE. Isso ocorre por meio de práticas como:

  • Desmatamento;
  • Limpeza de terras para agricultura e pastagem;
  • Criação de gado e ovelhas, que eliminam GEE no processo de digestão;
  • Uso de fertilizantes;
  • Uso de esterco;
  • Embalagem e distribuição de alimentos.
  • Máquinas agrícolas e barco de pesca, que normalmente necessitam de combustíveis fósseis para o funcionamento.

Todas essas práticas fazem com que a produção de alimentos contribua para as mudanças climáticas na agricultura.

Qual é o impacto das mudanças climáticas na agricultura?

A princípio, o aumento das temperaturas, no decorrer do tempo, tem modificado os padrões climáticos, desequilibrando a natureza. Isso representa muitos riscos para os seres humanos e todas as outras formas de vida na terra.

Confira a seguir os principais problemas causados pelas mudanças climáticas e seu impacto na agricultura!

Temperaturas mais altas

Em geral, conforme a concentração dos GEE aumenta, há também o aumento da temperatura da superfície global. A última década (2011-2020), por exemplo, é a mais quente já registrada no Brasil.

Diante disso, há consequências como:

  • Aumento do número de doenças associadas ao calor;
  • Maior dificuldade do trabalho ao ar livre;
  • Incêndios iniciam mais facilmente e espalham com mais rapidez;
  • Aumento das temperaturas do ártico pelo menos duas vezes mais rápido do que a média global.

Tempestades mais severas

As tempestades destrutivas têm ocorrido de forma mais intensa e frequente em muitas regiões. Assim, à medida que as temperaturas aumentam, mais umidade evapora, agravando chuvas e inundações severas, responsáveis pelo surgimento de tempestades destrutivas.

A frequência e a dimensão das tempestades tropicais também são afetadas pelo aquecimento do oceano. Como resultado, ciclones, furacões e tufões se alimentam da água quente na superfície do oceano e acabam por destruir casas e comunidades na região, causando mortes e enormes perdas econômicas.

Aumento da seca

Lavoura de soja no Rio Grande do Sul afetada pela seca em 2022 (Créditos: Diego Vara | Reuters)
Lavoura de soja no Rio Grande do Sul afetada pela seca em 2022 (Créditos: Diego Vara | Reuters)

Outro problema causado pelas mudanças climáticas é o aumento da seca, uma vez que elas afetam a disponibilidade de água e a tornam escassa em mais regiões.

Na prática, o aquecimento global amplia os períodos de seca em regiões onde a falta de água já é comum. Dessa forma, a agricultura é afetada, prejudicando o desenvolvimento das plantações e favorecendo as secas ecológicas e o aumento da vulnerabilidade dos ecossistemas.

Perda de espécies

A sobrevivência de espécies na terra e no oceano também é afetada pelas mudanças climáticas. Como consequência, o mundo está perdendo espécies a uma taxa 1.000 vezes maior do que em qualquer outro momento na história da humanidade.

De modo geral, um milhão de espécies estão em risco de extinção nas próximas décadas. Nesse sentido, as principais causas são: a ocorrência de incêndios florestais, clima extremo, aparecimento de doenças e pragas invasoras e demais ameaças relacionadas às mudanças climáticas.

Riscos para a saúde

As mudanças climáticas podem colocar a saúde da população em risco. Isso porque, os impactos no clima favorecem a poluição do ar, surgimento de doenças e aumento da fome e subnutrição em locais onde as pessoas não conseguem cultivar ou encontrar alimentos suficientes.

Perdas na produção agrícola

As mudanças climáticas podem impactar a agricultura em diversos aspectos, visto que a produção sofre interferências que geram complicações no resultado da lavoura. Como exemplo, podemos citar a ocorrência de chuvas em excesso, períodos de estiagem, temperaturas elevadas, ventos fortes e umidade do ar.

Na prática, essas interferências são responsáveis por modificar, de forma negativa, as condições de crescimento das culturas e, consequentemente, o fornecimento de alimentos.

Além disso, a elevação da temperatura pode atrair mais pragas para a lavoura, resultando assim no aumento do uso de inseticidas e uma maior exigência de recursos hídricos.

Ademais, a severidade das secas ou inundações pode representar um desafio para os agricultores, uma vez que as plantas ficam sensíveis e perecem em ambos os casos.

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Quais riscos as mudanças climáticas na agricultura oferecem caso não sejam controladas ou seus danos não sejam reduzidos?

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) é um órgão das Nações Unidas responsável por fazer avaliações de dados científicos sobre as alterações climáticas. A instituição publica regularmente relatórios que apontam informações importantes sobre as mudanças climáticas e suas consequências.

No Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, o órgão esclareceu que se medidas urgentes não forem tomadas para estabilizar as emissões dos gases até 2100, o aumento da temperatura global excederá 2ºC dos níveis pré-industriais. Esse aumento pode ser trágico.

Nesse cenário, os países tropicais como o Brasil serão provavelmente serão os mais castigados. Afinal, segundo o relatório, poderá acontecer uma série de inundações devido à intensificação das tempestades e períodos longos de estiagem.

Em ambos os casos, a pecuária e a agricultura poderão ser afetadas, assim como a sobrevivência de diversas espécies.

Além disso, determinadas regiões poderão sofrer com a grande quantidade de chuvas, gerando assim deslizamentos constantes de terra e aumento de enchentes.

Outro fator alarmante está relacionado às áreas costeiras, que sofrerão com a elevação do nível do mar graças ao degelo das geleiras causado pelo aumento da temperatura média do planeta.

Entretanto, vale ressaltar que segundo o IPCC, mesmo que haja a redução das emissões de gases do efeito estufa, a terra continuará sofrendo com os danos residuais. Por isso, ainda será necessário aprender a lidar com o aumento gradual da temperatura.

Contudo, a diminuição da emissão de gases de efeito estufa é necessária para que a intensidade desses problemas seja reduzida. Desse modo, é fundamental que todos os países se unam e tomem decisões para ajudar as populações a enfrentarem os problemas que estão por vir.

Quais iniciativas existem atualmente para diminuir o impacto das mudanças climáticas na agricultura?

Existem várias práticas que podem ajudar a reduzir as emissões dos GEE e os efeitos no aquecimento global. Entre elas estão:

  • Diminuir o desmatamento;
  • Investir no reflorestamento e na conservação de áreas naturais;
  • Incentivar o uso de energias renováveis não convencionais (solar, eólica, biomassa e pequenas hidrelétricas);
  • Priorizar o uso de biocombustíveis (etanol, biodiesel);
  • Reaproveitar e reciclar materiais;
  • Investir em tecnologias de baixo carbono;
  • Melhorar o transporte público com baixa emissão de GEE.

Redução das emissões de metano

Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sugeriu que a redução das emissões de metano poderia oferecer uma contribuição importante para combater a emergência planetária.

Em síntese, uma quantidade significativa de metano é liberada a partir do chamado flaring — a queima de gás natural durante a extração de petróleo — e pode ser interrompida com soluções técnicas.

Além disso, melhorar os métodos de descarte de lixo também pode ser importante, visto que os aterros sanitários são outra fonte de metano.

Na COP26, quase 100 países concordaram em reduzir as emissões de metano, em um acordo liderado pelos EUA e pela União Europeia.

Substituição da gasolina e do diesel

Outra iniciativa importante para reduzir os impactos das mudanças climáticas é buscar novas maneiras de abastecer os veículos utilizados para locomoção em terra, mar e ar.

Na prática, o ideal seria parar com o uso da gasolina e do diesel e começar a utilizar veículos elétricos. Já os caminhões poderiam ser movidos a combustível de hidrogênio, produzido a partir de energia renovável.

Atualmente os cientistas estão trabalhando na pesquisa de combustíveis novos e mais limpos para aeronaves. Por outro lado, os ativistas estão orientando as pessoas a pegarem menos voos.

Plantio de mais árvores

Um relatório da ONU em 2018 declarou que para uma chance realista de manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 °C, teremos que remover o CO² do ar.

Nesse cenário, as florestas são excelentes em absorvê-lo da atmosfera — motivo pelo qual ativistas e cientistas ressaltam a necessidade de proteger o mundo natural reduzindo o desmatamento.

Além disso, os programas de plantio em massa de árvores são vistos como uma forma de compensar as emissões de CO². Isso porque uma vez que as emissões tenham sido reduzidas o máximo possível, as emissões restantes poderiam ser “anuladas” por sumidouros de carbono, como as florestas.

Eliminação dos gases de efeito estufa do ar

Usina de captura de carbono da Climeworks na Suíça (Créditos: Gaetan Bally, Keystone, Redux)
Usina de captura de carbono da Climeworks na Suíça (Créditos: Gaetan Bally, Keystone, Redux)

Atualmente, uma série de instalações de captura direta de ar estão sendo desenvolvidas, incluindo as construídas pela Carbon Engineering, nos EUA, e pela Climeworks, na Suíça.

Em resumo, essas máquinas funcionam usando ventiladores enormes para sugar o ar para um filtro químico que absorve CO².

Outro método utilizado para remover os GEE do ar é a captura e armazenamento de carbono, que confinam as emissões em “fontes pontuais”  nas quais os gases são produzidos, como usinas de energia a carvão. Dessa forma, o CO² é enterrado profundamente no subsolo.

Entretanto, essa tecnologia é cara e controversa, uma vez que é vista pelos críticos como uma ajuda a perpetuar a dependência dos combustíveis fósseis.

Programas de Baixo Carbono

Em julho de 2020, a Bayer iniciou um programa de baixo carbono denominado Iniciativa Carbono Bayer, que tem o intuito de recompensar produtores rurais que adotam boas práticas no uso de ações de sequestro de carbono.

No momento, esse projeto está sendo realizado no Brasil e EUA nas culturas de milho e soja. Por aqui, a iniciativa possui o auxílio da Embrapa para desenvolver metodologias de baixa emissão de carbono, que ajudam a manter o carbono no solo. O intuito é escalar essas metodologias com um custo viável aos agricultores.

Outra iniciativa nesse sentido é o Programa Reverte, lançado em 2019 a partir de uma parceria entre a The Nature Conservancy (TNC) e a Syngenta. O projeto está baseado nos princípios da pecuária e agricultura regenerativa e tem o objetivo de demonstrar a viabilidade econômica da recuperação de pastagens degradadas em detrimento da abertura de novas áreas para cultivo.

Esse projeto visa fomentar a recuperação de pastagens do cerrado considerando os benefícios de conservação do solo e da água. O objetivo é melhorar a produtividade, aumentar o sequestro e reduzir as emissões de carbono, além de ampliar a resiliência dos sistemas produtivos a eventos climáticos extremos.

O que pode ser feito para reduzir os danos das mudanças climáticas na agricultura?

De modo geral, para conseguir minimizar os danos e evitar prejuízos para a agricultura, é necessário considerar as especificidades de cada região, as necessidades agrícolas e a possibilidade de implantação de determinados métodos.

Veja a seguir algumas formas de lidar com as mudanças climáticas na agricultura!

Preparação para mudanças repentinas do clima

Em primeiro lugar, o agricultor precisa ficar atento em relação às mudanças repentinas para conseguir garantir altos rendimentos e gerenciar os riscos.

Para isso, existem recursos tecnológicos que ajudam o produtor a ter uma previsibilidade sobre o clima e se preparar para evitar perdas na produção. Dentre os dados disponibilizados por essas ferramentas, estão:

  • Históricos com dados meteorológicos;
  • Previsões antecipadas com dados sobre vento, umidade, temperatura, entre outros indicadores.

Irrigação

Apesar de estar presente em todas as regiões do país, as técnicas de irrigação podem ser encontradas especialmente onde há escassez de água, como é o caso da região do semiárido, ou onde ocorrem períodos prolongados de seca, como na região central.

Assim, a partir da agricultura irrigada, o produtor tem a possibilidade de implantar lavouras em regiões mais secas, castigadas pela falta de chuva e baixa produtividade.

Plantio direto

O método de plantio direto ajuda a prevenir o surgimento de erosão, reduzir o esgotamento do solo e promover o sequestro de carbono. Por isso, ele representa um modelo de manejo benéfico em relação às mudanças climáticas e à agricultura.

Nesse sistema, a manutenção da cobertura vegetal, com palhada o ano todo, viabiliza a retirada de CO² da atmosfera e coloca-o, indiretamente, no solo.

Além disso, a cobertura do solo colabora para a regulação da temperatura, que favorece o desenvolvimento das plantas, e também contribui para menor evaporação da água, favorecendo assim a manutenção da umidade.

Conclusão

Neste artigo, abordamos os principais impactos causados pelas mudanças climáticas e quais iniciativas que estão sendo adotadas para reduzir os danos provocados pelas alterações drásticas do clima.

No mais, vimos que práticas do nosso dia a dia são responsáveis pelo aquecimento global, e que se medidas urgentes não forem tomadas ao longo dos anos, o planeta pode sofrer com aumento da temperatura global e seus prejuízos.

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Enfim, gostou desse conteúdo? Conseguiu entender quais são os impactos das mudanças climáticas na agricultura? Aproveite e leia também o nosso artigo sobre agricultura 5.0.

Rafaella Aires

Formada em Jornalismo, pós-graduada em Marketing e especialista em Comunicação Digital, atuo como Analista de Conteúdo no AgriQ Receituário Agronômico.

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