O percevejo barriga-verde é uma praga silenciosa, com grande potencial destrutivo para as lavouras. Muitas vezes, seus sinais passam despercebidos até que os prejuízos se tornam evidentes no campo.
Nesse sentido, saber identificar, prevenir e controlar essa praga é fundamental para proteger o rendimento das safras e garantir a saúde do solo e das plantas.
Neste artigo, você vai entender o que é o percevejo barriga-verde, como ele age nas plantações e quais estratégias de manejo podem ser aplicadas para controlá-lo de forma eficiente.
Confira!
O que é percevejo barriga-verde?
O percevejo barriga-verde é um inseto sugador, pertencente ao gênero Dichelops, que ataca culturas como milho, trigo e soja, causando prejuízos significativos na produção. O nome “barriga-verde” refere-se à coloração característica do inseto, com a parte dorsal marrom e a ventral verde.
Culturas afetadas
Entre as principais culturas afetadas pelo percevejo barriga-verde temos:
Milho: sem dúvida é uma das culturas mais afetadas, sendo considerada uma praga-chave, principalmente no milho safrinha (segunda safra). Ele causa danos severos nas fases iniciais de desenvolvimento da planta, podendo levar a folhas deformadas, perfilhamento excessivo e improdutivo e, até mesmo, a morte das plântulas.
Trigo: também é uma praga importante para o trigo, causando danos na qualidade dos grãos e na produtividade da lavoura.
Soja: embora os danos na soja possam ser menos evidentes inicialmente, a cultura da soja serve como uma “ponte-verde” para a sobrevivência e multiplicação dos percevejos.
Além dessas três culturas principais, o percevejo barriga-verde também pode causar danos em:
Como identificar o percevejo barriga-verde?

A princípio, o percevejo barriga-verde é uma praga agrícola caracterizada por sua coloração marrom-acinzentada no dorso e verde na parte ventral, medindo de 9 a 12 mm de comprimento.
Além disso, ele possui as seguintes características:
Nomes científicos: Dichelops melacanthus e Dichelops furcatus (também referidos como Diceraeus melacanthus e Diceraeus furcatus).
Família: Pentatomidae (são os famosos “fede-fede” ou “maria-fedida”, que exalam um odor desagradável).
Aparência:
- Possuem a parte dorsal (costas) marrom e a ventral (barriga) de cor verde-clara, característica que deu origem ao nome popular.
- Ambas as espécies têm prolongamentos laterais em forma de espinhos no pronoto (parte do tórax próxima à cabeça). A diferença entre elas está no tamanho e na coloração desses espinhos: D. furcatus é ligeiramente maior (cerca de 10 mm) e tem espinhos da mesma cor do dorso, enquanto D. melacanthus é menor (7 mm) e os espinhos são mais pontiagudos e escuros.
Ovos: são verde-claros logo após a postura e escurecem à medida que amadurecem, apresentando duas manchas avermelhadas que darão origem aos olhos.
Ninfas: têm coloração marrom-acinzentada na região dorsal e verde no abdômen.
Qual é o ciclo de vida do percevejo barriga-verde?
O percevejo barriga-verde tem um ciclo de vida que envolve três estágios principais: ovo, ninfa e adulto. Entenda como ocorre cada fase de desenvolvimento:
1. Ovo
As fêmeas depositam os ovos em grupos nas folhas ou outras partes da planta. Os ovos são inicialmente esverdeados e escurecem com o desenvolvimento, podendo apresentar duas manchas avermelhadas que correspondem aos olhos da ninfa em formação.
A fase de incubação dos ovos dura, em média, cerca de 4 a 5 dias, mas esse tempo pode variar dependendo da temperatura e umidade. Temperaturas mais altas favorecem um desenvolvimento mais rápido.
2. Ninfa
Após a eclosão dos ovos, surgem as ninfas, que são versões imaturas do percevejo. Elas são menores que os adultos, não possuem asas desenvolvidas e têm coloração marrom-acinzentada na parte dorsal e verde no abdômen.
Na prática, elas passam por cinco estádios (ínstares) de desenvolvimento, crescendo e realizando mudas (trocas de pele) à medida que aumentam de tamanho. A cada muda, elas se assemelham mais ao adulto.
Em geral, a fase ninfal completa (do 1º ao 5º ínstar) pode durar, em média, de 20 a 25 dias, dependendo das condições ambientais e da espécie.
Vale ressaltar que as ninfas já se alimentam da seiva das plantas e causam danos. Sendo que, a partir do 3º ínstar, os danos tornam-se mais significativos.
3. Adulto
Por fim, depois do quinto instar, as ninfas se tornam adultos. Nessa fase, o percevejo já possui asas completamente desenvolvidas, corpo marrom na parte dorsal e barriga verde-clara (embora a cor ventral possa mudar para marrom-acinzentada em meses mais frios). Além disso, também está apto a reproduzir-se.
É justamente por conta da capacidade reprodutiva, além da alimentação, que os percevejos adultos são os mais capazes de se dispersar entre as lavouras e continuar causando danos significativos.
As fêmeas adultas podem depositar várias posturas de ovos ao longo de sua vida. Uma única fêmea pode botar dezenas a centenas de ovos.
A longevidade dos adultos pode variar bastante, sendo que as fêmeas tendem a viver mais do que os machos. Em média, um adulto pode viver de 30 a mais de 100 dias, dependendo das condições ambientais e da disponibilidade de alimento. No entanto, durante o outono e inverno, eles podem entrar em um estado de hibernação parcial, prolongando sua vida.
Quais são os danos causados pelo percevejo barriga-verde?

O percevejo barriga-verde pode causar danos significativos às culturas agrícolas, visto que possui o hábito alimentar de sucção de seiva e à injeção de toxinas.
Em geral, os prejuízos podem ser diretos, afetando a produtividade, e indiretos, prejudicando a qualidade dos grãos e sementes. Confira a seguir:
Principais danos
Quando o percevejo barriga-verde se alimenta, ele insere seu estilete (aparelho bucal) na planta para sugar a seiva e, ao mesmo tempo, injeta substâncias com ação tóxica nos tecidos vegetais. Essa ação conjunta resulta em uma série de sintomas e danos:
Murchamento: as folhas, especialmente as centrais, podem murchar — um sintoma conhecido como “coração morto”.
Encharutamento das folhas: as folhas podem não se abrir completamente, ficando enroladas ou “encharutadas”, devido a alterações fisiológicas causadas pelas toxinas.
Deformações e perfurações: as folhas podem ficar deformadas, retorcidas e apresentar perfurações arredondadas ou transversais às nervuras, muitas vezes com bordas amareladas (halo amarelo) ao redor do local da picada.
Secamento da planta: em ataques severos, principalmente em plântulas, a planta pode secar totalmente e morrer.
Redução do estande: a morte de plântulas ou o comprometimento do desenvolvimento inicial da cultura leva à redução do número de plantas por área, exigindo, em alguns casos, o replantio.
Perfilhamento excessivo e improdutivo: em algumas culturas, a planta pode produzir mais brotos laterais (perfilhos), mas de forma improdutiva, desviando energia do desenvolvimento principal da planta.
Perda de produtividade: este é o dano econômico mais relevante, com a redução na quantidade de grãos colhidos.
Comprometimento da qualidade dos grãos e sementes: os grãos podem ficar chochos, menores, enrugados, com redução de massa e teor de óleo, além de ter o potencial germinativo e o vigor das sementes diminuídos.
Transmissão de patógenos: embora não seja o principal vetor de doenças, o percevejo pode facilitar a entrada de fungos e bactérias nos locais de injúria.
Como realizar o manejo e controle do percevejo barriga-verde?
O manejo e controle do percevejo barriga-verde exigem uma abordagem integrada, combinando diferentes estratégias para reduzir a população da praga e minimizar os danos às culturas.
Sendo assim, o recomendado é adotar o Manejo Integrado de Pragas (MIP) a fim de equilibrar a eficácia do controle com a sustentabilidade ambiental e econômica.
Veja a seguir quais estratégias de controle podem ser utilizadas:
1. Monitoramento de pragas constante
O monitoramento é o ponto de partida para qualquer estratégia de controle. Afinal, saber quando e onde a praga está presente, e em que níveis populacionais, é fundamental para tomar decisões assertivas.
Nesse sentido, realizar o monitoramento em diferentes etapas do cultivo pode ajudar o produtor a ter um acompanhamento mais preciso. Portanto, o recomendado é:
Pré-plantio e entressafra: avalie a presença de percevejos na palhada e em plantas daninhas hospedeiras. Eles se abrigam nessas áreas e migram para as novas lavouras.
Pós-emergência: realize vistorias frequentes nas lavouras recém-emergidas, principalmente nas primeiras horas da manhã ou no final da tarde, quando os percevejos estão mais ativos.
2. Controle cultural
As práticas de controle cultural têm o objetivo de criar um ambiente menos favorável para a praga. Entre elas estão:
Dessecação antecipada: realize a dessecação da área antes do plantio, eliminando plantas daninhas e restos culturais que servem de abrigo e alimento para os percevejos na entressafra.
Controle de plantas daninhas: mantenha a lavoura e as áreas adjacentes livres de plantas daninhas durante todo o ciclo da cultura, pois muitas delas são hospedeiras alternativas para os percevejos.
Rotação de culturas: a alternância de culturas que não sejam hospedeiras do percevejo pode ajudar a quebrar seu ciclo de vida e reduzir a população ao longo do tempo.
Adubação equilibrada: plantas bem nutridas tendem a ser mais tolerantes ao ataque de pragas agrícolas, recuperando-se melhor dos danos.
Escolha de híbridos/variedades: embora não exista resistência total, alguns materiais genéticos podem apresentar maior tolerância ao ataque da praga.
Época de plantio: em algumas regiões, ajustar a época de plantio pode ajudar a evitar os picos populacionais da praga.
3. Controle químico
O controle químico com o uso de agrotóxicos é uma ferramenta importante no controle do percevejo barriga-verde, especialmente em situações de alta pressão ou quando outras medidas não são suficientes.
Para a aplicação de inseticidas, deve-se considerar os seguintes pontos.
Tratamento de sementes: é uma estratégia fundamental para proteger a lavoura nos estágios iniciais de desenvolvimento, período de maior vulnerabilidade. Nesta estratégia, a aplicação de inseticidas ocorre de forma preventiva.
Pulverizações:
- Dessecação: se o monitoramento indicar alta população de percevejos na palhada antes do plantio, a aplicação de inseticidas junto com o herbicida da dessecação pode ser eficaz para reduzir a população inicial.
- Pós-emergência (parte aérea): quando os percevejos são detectados nas plantas recém-emergidas (em níveis de ação, como 0,8 a 1 percevejo/m²), a pulverização de inseticidas eficazes é necessária.
Momento da aplicação: priorize as primeiras horas da manhã ou o final da tarde/noite, quando os insetos estão mais ativos e expostos.
Ingredientes ativos: existem diversos produtos registrados, incluindo neonicotinoides, piretroides, metilcarbamatos e organofosforados. É essencial consultar um profissional especializado, como o engenheiro agrônomo e o técnico agrícola, para a escolha do produto mais adequado e a dose correta, seguindo as recomendações da bula, do receituário agronômico e da legislação local.
Rotação de modos de ação: para evitar o desenvolvimento de resistência da praga aos inseticidas, é importante rotacionar os produtos com diferentes modos de ação.
4. Controle biológico
O controle biológico consiste no uso de inimigos naturais para reduzir a população da praga. Alguns exemplos são:
- Vespas parasitoides de ovos, como as do gênero Trissolcus (por exemplo, Telenomus posidi), depositam seus ovos dentro dos ovos do percevejo, impedindo o desenvolvimento da praga;
- Alguns fungos como Beauveria bassiana podem infectar e matar os percevejos.
Vale ressaltar que a utilização racional de inseticidas (priorizando o tratamento de sementes e aplicações pontuais) e a manutenção de áreas com vegetação nativa podem ajudar a preservar e favorecer a população de inimigos naturais na lavoura.
Conclusão
O percevejo barriga-verde representa um risco real à produtividade agrícola, especialmente em culturas como milho, trigo e soja. Por isso, é fundamental que o produtor esteja preparado para identificar e agir rapidamente no controle dessa praga.
Com estratégias bem planejadas e o uso de ferramentas adequadas, é possível minimizar os danos e garantir mais segurança e rentabilidade para a lavoura.
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Formada em Jornalismo, pós-graduada em Marketing e especialista em Comunicação Digital, atuo como Analista de Conteúdo no AgriQ Receituário Agronômico.


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